{"id":100,"date":"2026-08-17T10:50:46","date_gmt":"2026-08-17T13:50:46","guid":{"rendered":"https:\/\/cozinhamanezinha.com.br\/blog\/?p=100"},"modified":"2026-08-17T10:50:46","modified_gmt":"2026-08-17T13:50:46","slug":"cozinha-florianopolis-acoriana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cozinhamanezinha.com.br\/blog\/cozinha-florianopolis-acoriana\/","title":{"rendered":"A cozinha de Florian\u00f3polis \u00e9 a\u00e7oriana? Entenda as ra\u00edzes da mesa manezinha"},"content":{"rendered":"<p>Sim, a heran\u00e7a a\u00e7oriana \u00e9 uma parte decisiva da cozinha de Florian\u00f3polis. Mas chamar toda a culin\u00e1ria manezinha simplesmente de \u201ca\u00e7oriana\u201d esconde justamente o que ela tem de mais interessante: a transforma\u00e7\u00e3o ocorrida na Ilha de Santa Catarina.<\/p>\n<p>Os colonos que chegaram dos A\u00e7ores e da Madeira trouxeram conhecimentos, temperos, h\u00e1bitos religiosos e maneiras de organizar a vida comunit\u00e1ria. Ao mesmo tempo, encontraram um territ\u00f3rio com alimentos e saberes ind\u00edgenas j\u00e1 estabelecidos, passaram a depender muito mais da mandioca e do pescado e viveram em uma sociedade sustentada tamb\u00e9m pelo trabalho de africanos e afrodescendentes.<\/p>\n<p>O resultado n\u00e3o \u00e9 uma c\u00f3pia dos A\u00e7ores. \u00c9 uma cozinha formada aqui \u2014 a\u00e7oriano-catarinense, ilhoa e manezinha \u2014 na qual diferentes heran\u00e7as se encontraram de maneira desigual, mas insepar\u00e1vel.<\/p>\n<h2>O que os a\u00e7orianos trouxeram para a Ilha<\/h2>\n<p>Entre 1748 e 1756, milhares de colonos provenientes principalmente dos A\u00e7ores, al\u00e9m da Madeira, chegaram ao litoral catarinense dentro da pol\u00edtica portuguesa de ocupa\u00e7\u00e3o do Sul do Brasil. Na Ilha, contribu\u00edram para consolidar freguesias, lavouras, festas religiosas, redes de vizinhan\u00e7a e formas de trabalho ligadas \u00e0 terra e ao mar.<\/p>\n<p>Essa presen\u00e7a deixou marcas profundas na alimenta\u00e7\u00e3o. Entre elas estavam o gosto por sopas e caldos, o uso de ervas e condimentos, formas de preparar e conservar peixes, cria\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de animais, cultivo de quintais e a organiza\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es e festas comunit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vieram mem\u00f3rias alimentares de um arquip\u00e9lago onde trigo, p\u00e3o, milho, carne bovina, leite, queijos e determinados peixes ocupavam posi\u00e7\u00f5es diferentes das encontradas no Brasil. Essas refer\u00eancias n\u00e3o desapareceram, mas precisaram ser refeitas com os ingredientes, o clima e as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da nova terra.<\/p>\n<h2>Por que a alimenta\u00e7\u00e3o precisou mudar<\/h2>\n<p>A Ilha de Santa Catarina n\u00e3o reproduzia o ambiente dos A\u00e7ores. Muitos produtos conhecidos pelos colonos n\u00e3o estavam dispon\u00edveis na mesma quantidade, e a vida de subsist\u00eancia exigia aproveitar aquilo que o territ\u00f3rio oferecia.<\/p>\n<p>Estudo publicado pela Revista Santa Catarina em Hist\u00f3ria, da UFSC, mostra que mandioca, milho e peixes \u2014 alimentos de heran\u00e7a ind\u00edgena \u2014 se tornaram indispens\u00e1veis na alimenta\u00e7\u00e3o a\u00e7oriano-catarinense. O trabalho combinava lavoura e pesca: depender apenas do mar nem sempre sustentava a casa durante todo o ano.<\/p>\n<p>O peixe ganhou mais espa\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s carnes e aos queijos consumidos no arquip\u00e9lago. A mandioca assumiu fun\u00e7\u00f5es que, em outra realidade, seriam cumpridas pelo trigo e por outros cereais. A pesca tamb\u00e9m foi adaptada \u00e0s esp\u00e9cies, aos ventos, \u00e0s \u00e1guas e \u00e0s t\u00e9cnicas existentes no litoral brasileiro.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a ajuda a entender uma diferen\u00e7a importante: a heran\u00e7a a\u00e7oriana est\u00e1 presente, mas os pratos que hoje reconhecemos como manezinhos n\u00e3o viajaram prontos dentro dos navios.<\/p>\n<h2>Mandioca e pir\u00e3o n\u00e3o come\u00e7aram nos A\u00e7ores<\/h2>\n<p>A mandioca \u00e9 uma planta americana, domesticada e transformada em alimento por povos ind\u00edgenas muito antes da coloniza\u00e7\u00e3o europeia. Produzir farinha a partir de variedades que exigem processamento seguro envolve um conjunto sofisticado de conhecimentos: colher, raspar, ralar, prensar, peneirar e fornear.<\/p>\n<p>Os colonos aprenderam e incorporaram essa base. Na Ilha, a farinha passou a acompanhar peixe, feij\u00e3o, carnes e caf\u00e9, al\u00e9m de entrar em beijus, bolos, roscas e diferentes tipos de pir\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, o pir\u00e3o de peixe n\u00e3o pode ser apresentado como uma receita simplesmente importada dos A\u00e7ores. Sua mat\u00e9ria-prima e sua l\u00f3gica alimentar t\u00eam raiz ind\u00edgena. O que se consolidou no litoral catarinense foi uma combina\u00e7\u00e3o local: farinha de mandioca com \u00e1gua, feij\u00e3o ou caldo de pescado, servida dentro de uma mesa j\u00e1 transformada pelo encontro cultural.<\/p>\n<p>Para perceber essa base em sua forma mais direta, vale conhecer o nosso <a href=\"\/blog\/pirao-dagua\/\">pir\u00e3o d\u2019\u00e1gua, com propor\u00e7\u00e3o inicial e duas t\u00e9cnicas para evitar grumos<\/a>. A vers\u00e3o preparada com caldo, por sua vez, aparece no <a href=\"\/blog\/pirao-de-peixe\/\">pir\u00e3o de peixe cremoso e sem empelotar<\/a>.<\/p>\n<h2>Os engenhos contam uma hist\u00f3ria de tr\u00eas matrizes<\/h2>\n<p>Os engenhos de farinha se tornaram centros de produ\u00e7\u00e3o, conviv\u00eancia e mem\u00f3ria em Santa Catarina. Durante a farinhada, fam\u00edlias e vizinhos dividiam tarefas na raspagem, lavagem, prensagem, peneira\u00e7\u00e3o e torra da mandioca. Ao redor do processo surgiam alimentos, cantos, instrumentos, conhecimentos de carpintaria e maneiras pr\u00f3prias de organizar o trabalho.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2026, o IPHAN registrou os Saberes e Pr\u00e1ticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina como Patrim\u00f4nio Cultural do Brasil. O reconhecimento destaca que esse patrim\u00f4nio n\u00e3o possui uma \u00fanica origem.<\/p>\n<p>A base da mandioca \u00e9 ind\u00edgena. Colonos a\u00e7orianos participaram da adapta\u00e7\u00e3o de mecanismos, da expans\u00e3o dos engenhos e de sua organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Africanos e afrodescendentes contribu\u00edram com trabalho e conhecimentos agr\u00edcolas, construtivos e artesanais. Dessa combina\u00e7\u00e3o surgiu, entre outros produtos, a farinha fina e polvilhada caracter\u00edstica de Santa Catarina.<\/p>\n<p>Falar apenas em \u201cengenho a\u00e7oriano\u201d pode ser uma forma pr\u00e1tica de localiza\u00e7\u00e3o cultural, mas n\u00e3o explica todos os conhecimentos nem todas as pessoas que fizeram o sistema funcionar.<\/p>\n<h2>Onde entram as contribui\u00e7\u00f5es negras<\/h2>\n<p>A presen\u00e7a negra foi frequentemente reduzida nas narrativas populares sobre o litoral catarinense. Pesquisas hist\u00f3ricas apoiadas pela Fapesc mostram que pessoas africanas escravizadas trabalharam em propriedades rurais produtoras de farinha de mandioca, a\u00e7\u00facar, feij\u00e3o, milho, cacha\u00e7a e outros g\u00eaneros que abasteciam Desterro.<\/p>\n<p>Pessoas negras escravizadas e livres tamb\u00e9m participaram da pesca, do transporte, da carpintaria, do com\u00e9rcio e da circula\u00e7\u00e3o de alimentos. Nem sempre a documenta\u00e7\u00e3o permite atribuir uma receita espec\u00edfica a uma \u00fanica origem africana, e seria incorreto inventar essa liga\u00e7\u00e3o. Mas excluir essas pessoas da hist\u00f3ria dos sistemas alimentares tamb\u00e9m seria um erro.<\/p>\n<p>A abordagem mais honesta \u00e9 reconhecer participa\u00e7\u00e3o, trabalho e conhecimento onde h\u00e1 documenta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de deixar claras as lacunas das fontes.<\/p>\n<h2>Peixe com pir\u00e3o \u00e9 a\u00e7oriano ou manezinho?<\/h2>\n<p>\u00c9 manezinho e a\u00e7oriano-catarinense, mas sua forma\u00e7\u00e3o re\u00fane mais de uma matriz.<\/p>\n<p>O estudo da UFSC sobre o universo alimentar registrado por Franklin Cascaes identifica peixe escalado, peixe assado na folha de bananeira e pir\u00e3o entre os preparos associados ao cotidiano a\u00e7oriano-catarinense. Ao mesmo tempo, o pr\u00f3prio estudo ressalta a import\u00e2ncia ind\u00edgena da mandioca, do milho e dos peixes e mostra como a alimenta\u00e7\u00e3o precisou ser readaptada na Ilha.<\/p>\n<p>O pir\u00e3o tamb\u00e9m existe em diferentes regi\u00f5es brasileiras e pode ser escaldado \u2014 quando o caldo quente \u00e9 derramado sobre a farinha \u2014 ou mexido, quando a farinha cozinha dentro do l\u00edquido at\u00e9 engrossar. Na costa catarinense, ele encontrou no caldo de peixe uma de suas combina\u00e7\u00f5es mais reconhec\u00edveis.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio escolher entre apagar os a\u00e7orianos ou atribuir tudo a eles. A resposta mais precisa est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o do prato: raiz ind\u00edgena da mandioca, adapta\u00e7\u00e3o a\u00e7oriano-catarinense, trabalho de diferentes grupos e disponibilidade de pescado na Ilha.<\/p>\n<h2>O que continuou ligado aos A\u00e7ores<\/h2>\n<p>Uma cozinha n\u00e3o \u00e9 feita apenas de ingredientes. Modos de servir, festas, religiosidade, rela\u00e7\u00f5es familiares, hospitalidade, hor\u00e1rios das refei\u00e7\u00f5es, t\u00e9cnicas de conserva\u00e7\u00e3o e mem\u00f3rias tamb\u00e9m constroem identidade.<\/p>\n<p>Algumas perman\u00eancias ajudam a reconhecer a heran\u00e7a portuguesa e a\u00e7oriana:<\/p>\n<ul>\n<li>sopas, caldos e cozidos como formatos recorrentes;<\/li>\n<li>uso de ervas, cebola, alho, louro e outros condimentos;<\/li>\n<li>valoriza\u00e7\u00e3o do peixe e de preparos destinados \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>festas religiosas e refei\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias;<\/li>\n<li>cria\u00e7\u00e3o de animais, quintais e lavouras de subsist\u00eancia;<\/li>\n<li>organiza\u00e7\u00e3o das antigas freguesias e forte liga\u00e7\u00e3o entre parentes e vizinhos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Esses elementos foram preservados, adaptados ou ressignificados. A cultura permaneceu justamente porque n\u00e3o ficou congelada.<\/p>\n<h2>E os pratos hoje vendidos como \u201ca\u00e7orianos\u201d?<\/h2>\n<p>Restaurantes e roteiros tur\u00edsticos costumam reunir sob o r\u00f3tulo a\u00e7oriano peixes, pir\u00f5es, camar\u00f5es, mariscos, ostras e outros pratos litor\u00e2neos. O nome comunica uma identidade regional leg\u00edtima, mas n\u00e3o funciona como certificado de origem hist\u00f3rica de cada receita.<\/p>\n<p>Alguns s\u00edmbolos s\u00e3o relativamente recentes. A maricultura comercial de ostras ganhou for\u00e7a a partir do fim do s\u00e9culo XX. A sequ\u00eancia de camar\u00e3o se consolidou nos restaurantes da Lagoa da Concei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o corresponde a um menu levado pronto dos A\u00e7ores no s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o torna os pratos menos manezinhos. Mostra que tradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser constru\u00edda no presente. A diferen\u00e7a est\u00e1 em contar quando e como cada elemento entrou na mesa.<\/p>\n<h2>Afinal, qual \u00e9 a melhor defini\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n<p>A cozinha de Florian\u00f3polis possui <strong>forte heran\u00e7a a\u00e7oriana<\/strong>, mas foi formada na Ilha por adapta\u00e7\u00f5es e encontros. Cham\u00e1-la de cozinha manezinha ou a\u00e7oriano-catarinense permite reconhecer esse processo com mais precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela combina:<\/p>\n<ul>\n<li>conhecimentos ind\u00edgenas sobre mandioca, pesca e territ\u00f3rio;<\/li>\n<li>h\u00e1bitos, religiosidade e formas de organiza\u00e7\u00e3o trazidos por a\u00e7orianos e madeirenses;<\/li>\n<li>trabalho e conhecimentos de africanos e afrodescendentes;<\/li>\n<li>ingredientes dispon\u00edveis no litoral e nas ro\u00e7as;<\/li>\n<li>transforma\u00e7\u00f5es urbanas, restaurantes, turismo e maricultura.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Essa leitura n\u00e3o enfraquece a heran\u00e7a a\u00e7oriana. Ela a coloca dentro de uma hist\u00f3ria maior e mais interessante. Para acompanhar a sequ\u00eancia completa, leia tamb\u00e9m <a href=\"\/blog\/historia-culinaria-florianopolis\/\">como diferentes povos, engenhos, mercados e atividades formaram a culin\u00e1ria de Florian\u00f3polis<\/a>.<\/p>\n<h2>Fontes consultadas<\/h2>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/ojs.sites.ufsc.br\/index.php\/sceh\/article\/view\/5686\/5129\">UFSC \u2014 O universo alimentar do a\u00e7oriano-catarinense no livro O Fant\u00e1stico na Ilha de Santa Catarina<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/iphan\/pt-br\/assuntos\/noticias\/iphan-aprova-registro-dos-saberes-e-praticas-tradicionais-associados-aos-engenhos-de-farinha-de-mandioca-de-sc\">IPHAN \u2014 registro dos saberes e pr\u00e1ticas associados aos engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/fapesc.sc.gov.br\/2806-pesquisa-aborda-presenca-do-negro-no-litoral-catarinense\/\">Fapesc \u2014 pesquisa sobre a presen\u00e7a negra no litoral catarinense<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/biblioteca.epagri.sc.gov.br\/consulta\/busca?b=ad&#038;biblioteca=&#038;busca=%28autoria%3A%22L.+C.%22%29&#038;id=129286&#038;paginaAtual=72&#038;paginacao=t&#038;qFacets=%28autoria%3A%22L.+C.%22%29&#038;sort=autoria-sort\">Epagri \u2014 farinha de mandioca fina, branca e polvilhada de Santa Catarina<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.saq.sc.gov.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Livro-e-vem-do-mar-completo-para-boneco.pdf\">E vem do mar \u2014 breve hist\u00f3ria dos alimentos e da culin\u00e1ria na Ilha de Santa Catarina<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>\u00daltima revis\u00e3o editorial: 17 de agosto de 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, a heran\u00e7a a\u00e7oriana \u00e9 uma parte decisiva da cozinha de Florian\u00f3polis. 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