Sim, a herança açoriana é uma parte decisiva da cozinha de Florianópolis. Mas chamar toda a culinária manezinha simplesmente de “açoriana” esconde justamente o que ela tem de mais interessante: a transformação ocorrida na Ilha de Santa Catarina.
Os colonos que chegaram dos Açores e da Madeira trouxeram conhecimentos, temperos, hábitos religiosos e maneiras de organizar a vida comunitária. Ao mesmo tempo, encontraram um território com alimentos e saberes indígenas já estabelecidos, passaram a depender muito mais da mandioca e do pescado e viveram em uma sociedade sustentada também pelo trabalho de africanos e afrodescendentes.
O resultado não é uma cópia dos Açores. É uma cozinha formada aqui — açoriano-catarinense, ilhoa e manezinha — na qual diferentes heranças se encontraram de maneira desigual, mas inseparável.
O que os açorianos trouxeram para a Ilha
Entre 1748 e 1756, milhares de colonos provenientes principalmente dos Açores, além da Madeira, chegaram ao litoral catarinense dentro da política portuguesa de ocupação do Sul do Brasil. Na Ilha, contribuíram para consolidar freguesias, lavouras, festas religiosas, redes de vizinhança e formas de trabalho ligadas à terra e ao mar.
Essa presença deixou marcas profundas na alimentação. Entre elas estavam o gosto por sopas e caldos, o uso de ervas e condimentos, formas de preparar e conservar peixes, criação doméstica de animais, cultivo de quintais e a organização de refeições e festas comunitárias.
Também vieram memórias alimentares de um arquipélago onde trigo, pão, milho, carne bovina, leite, queijos e determinados peixes ocupavam posições diferentes das encontradas no Brasil. Essas referências não desapareceram, mas precisaram ser refeitas com os ingredientes, o clima e as condições econômicas da nova terra.
Por que a alimentação precisou mudar
A Ilha de Santa Catarina não reproduzia o ambiente dos Açores. Muitos produtos conhecidos pelos colonos não estavam disponíveis na mesma quantidade, e a vida de subsistência exigia aproveitar aquilo que o território oferecia.
Estudo publicado pela Revista Santa Catarina em História, da UFSC, mostra que mandioca, milho e peixes — alimentos de herança indígena — se tornaram indispensáveis na alimentação açoriano-catarinense. O trabalho combinava lavoura e pesca: depender apenas do mar nem sempre sustentava a casa durante todo o ano.
O peixe ganhou mais espaço em relação às carnes e aos queijos consumidos no arquipélago. A mandioca assumiu funções que, em outra realidade, seriam cumpridas pelo trigo e por outros cereais. A pesca também foi adaptada às espécies, aos ventos, às águas e às técnicas existentes no litoral brasileiro.
Essa mudança ajuda a entender uma diferença importante: a herança açoriana está presente, mas os pratos que hoje reconhecemos como manezinhos não viajaram prontos dentro dos navios.
Mandioca e pirão não começaram nos Açores
A mandioca é uma planta americana, domesticada e transformada em alimento por povos indígenas muito antes da colonização europeia. Produzir farinha a partir de variedades que exigem processamento seguro envolve um conjunto sofisticado de conhecimentos: colher, raspar, ralar, prensar, peneirar e fornear.
Os colonos aprenderam e incorporaram essa base. Na Ilha, a farinha passou a acompanhar peixe, feijão, carnes e café, além de entrar em beijus, bolos, roscas e diferentes tipos de pirão.
Por isso, o pirão de peixe não pode ser apresentado como uma receita simplesmente importada dos Açores. Sua matéria-prima e sua lógica alimentar têm raiz indígena. O que se consolidou no litoral catarinense foi uma combinação local: farinha de mandioca com água, feijão ou caldo de pescado, servida dentro de uma mesa já transformada pelo encontro cultural.
Para perceber essa base em sua forma mais direta, vale conhecer o nosso pirão d’água, com proporção inicial e duas técnicas para evitar grumos. A versão preparada com caldo, por sua vez, aparece no pirão de peixe cremoso e sem empelotar.
Os engenhos contam uma história de três matrizes
Os engenhos de farinha se tornaram centros de produção, convivência e memória em Santa Catarina. Durante a farinhada, famílias e vizinhos dividiam tarefas na raspagem, lavagem, prensagem, peneiração e torra da mandioca. Ao redor do processo surgiam alimentos, cantos, instrumentos, conhecimentos de carpintaria e maneiras próprias de organizar o trabalho.
Em março de 2026, o IPHAN registrou os Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina como Patrimônio Cultural do Brasil. O reconhecimento destaca que esse patrimônio não possui uma única origem.
A base da mandioca é indígena. Colonos açorianos participaram da adaptação de mecanismos, da expansão dos engenhos e de sua organização comunitária. Africanos e afrodescendentes contribuíram com trabalho e conhecimentos agrícolas, construtivos e artesanais. Dessa combinação surgiu, entre outros produtos, a farinha fina e polvilhada característica de Santa Catarina.
Falar apenas em “engenho açoriano” pode ser uma forma prática de localização cultural, mas não explica todos os conhecimentos nem todas as pessoas que fizeram o sistema funcionar.
Onde entram as contribuições negras
A presença negra foi frequentemente reduzida nas narrativas populares sobre o litoral catarinense. Pesquisas históricas apoiadas pela Fapesc mostram que pessoas africanas escravizadas trabalharam em propriedades rurais produtoras de farinha de mandioca, açúcar, feijão, milho, cachaça e outros gêneros que abasteciam Desterro.
Pessoas negras escravizadas e livres também participaram da pesca, do transporte, da carpintaria, do comércio e da circulação de alimentos. Nem sempre a documentação permite atribuir uma receita específica a uma única origem africana, e seria incorreto inventar essa ligação. Mas excluir essas pessoas da história dos sistemas alimentares também seria um erro.
A abordagem mais honesta é reconhecer participação, trabalho e conhecimento onde há documentação, além de deixar claras as lacunas das fontes.
Peixe com pirão é açoriano ou manezinho?
É manezinho e açoriano-catarinense, mas sua formação reúne mais de uma matriz.
O estudo da UFSC sobre o universo alimentar registrado por Franklin Cascaes identifica peixe escalado, peixe assado na folha de bananeira e pirão entre os preparos associados ao cotidiano açoriano-catarinense. Ao mesmo tempo, o próprio estudo ressalta a importância indígena da mandioca, do milho e dos peixes e mostra como a alimentação precisou ser readaptada na Ilha.
O pirão também existe em diferentes regiões brasileiras e pode ser escaldado — quando o caldo quente é derramado sobre a farinha — ou mexido, quando a farinha cozinha dentro do líquido até engrossar. Na costa catarinense, ele encontrou no caldo de peixe uma de suas combinações mais reconhecíveis.
Portanto, não é necessário escolher entre apagar os açorianos ou atribuir tudo a eles. A resposta mais precisa está na formação do prato: raiz indígena da mandioca, adaptação açoriano-catarinense, trabalho de diferentes grupos e disponibilidade de pescado na Ilha.
O que continuou ligado aos Açores
Uma cozinha não é feita apenas de ingredientes. Modos de servir, festas, religiosidade, relações familiares, hospitalidade, horários das refeições, técnicas de conservação e memórias também constroem identidade.
Algumas permanências ajudam a reconhecer a herança portuguesa e açoriana:
- sopas, caldos e cozidos como formatos recorrentes;
- uso de ervas, cebola, alho, louro e outros condimentos;
- valorização do peixe e de preparos destinados à conservação;
- festas religiosas e refeições comunitárias;
- criação de animais, quintais e lavouras de subsistência;
- organização das antigas freguesias e forte ligação entre parentes e vizinhos.
Esses elementos foram preservados, adaptados ou ressignificados. A cultura permaneceu justamente porque não ficou congelada.
E os pratos hoje vendidos como “açorianos”?
Restaurantes e roteiros turísticos costumam reunir sob o rótulo açoriano peixes, pirões, camarões, mariscos, ostras e outros pratos litorâneos. O nome comunica uma identidade regional legítima, mas não funciona como certificado de origem histórica de cada receita.
Alguns símbolos são relativamente recentes. A maricultura comercial de ostras ganhou força a partir do fim do século XX. A sequência de camarão se consolidou nos restaurantes da Lagoa da Conceição e não corresponde a um menu levado pronto dos Açores no século XVIII.
Isso não torna os pratos menos manezinhos. Mostra que tradição também pode ser construída no presente. A diferença está em contar quando e como cada elemento entrou na mesa.
Afinal, qual é a melhor definição?
A cozinha de Florianópolis possui forte herança açoriana, mas foi formada na Ilha por adaptações e encontros. Chamá-la de cozinha manezinha ou açoriano-catarinense permite reconhecer esse processo com mais precisão.
Ela combina:
- conhecimentos indígenas sobre mandioca, pesca e território;
- hábitos, religiosidade e formas de organização trazidos por açorianos e madeirenses;
- trabalho e conhecimentos de africanos e afrodescendentes;
- ingredientes disponíveis no litoral e nas roças;
- transformações urbanas, restaurantes, turismo e maricultura.
Essa leitura não enfraquece a herança açoriana. Ela a coloca dentro de uma história maior e mais interessante. Para acompanhar a sequência completa, leia também como diferentes povos, engenhos, mercados e atividades formaram a culinária de Florianópolis.
Fontes consultadas
- UFSC — O universo alimentar do açoriano-catarinense no livro O Fantástico na Ilha de Santa Catarina
- IPHAN — registro dos saberes e práticas associados aos engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina
- Fapesc — pesquisa sobre a presença negra no litoral catarinense
- Epagri — farinha de mandioca fina, branca e polvilhada de Santa Catarina
- E vem do mar — breve história dos alimentos e da culinária na Ilha de Santa Catarina
Última revisão editorial: 17 de agosto de 2026.